A ilusão do próximo ganho: quando o jogo de apostas online viram vício

O jogo de apostas começa como uma curiosidade, evolui para uma brincadeira ou até uma tentativa de ganhar um dinheirinho extra no fim do mês. Uma aposta esportiva despretensiosa, um clique em um jogo online que todo mundo está comentando ou um palpite rápido no celular. Algo bobo, sem importância e de baixíssimo valor. No início, há a alegria do primeiro ganho. Depois, a chateação por uma perda. Aí vem a tentativa de recuperar o que foi perdido. Em poucas horas ou dias, o que era para ser diversão passa a ocupar cada pensamento do seu dia, transformando o celular em uma fonte constante de ansiedade. (Leia o artigo no blog da ansiedade, você vai se surpreender sobre o que ela é e como realmente acontece no dia a dia).
O vício em jogos e apostas — conhecido clinicamente como Transtorno do Jogo — tem se espalhado de forma muito rápida com a facilidade do acesso digital. Hoje, o cassino e as casas de apostas estão no bolso de qualquer pessoa, a um clique de distância, 24 horas por dia (Sim, isso mesmo, não é só em Las Vegas que se acha um cassino). Um cassino vem com a imagem de um bichinho, ou vem no tema de futebol... mas é um cassino.
Diferente dos vícios químicos, o jogo vicia pela expectativa do ganho, não pelo ganho em si. Só a ideia de poder ganhar, te vicia. Pensa comigo: se fosse fácil ganhar, não seria considerado um jogo de azar, e você ganharia na maioria das vezes. Quando você joga, mesmo antes de ganhar, o seu cérebro já recebe uma descarga grande de dopamina (a dopamina é um neurotransmissor produzido no cérebro de todo mundo, que permite a comunicação entre os neurônios, mas também é conhecida como "hormônio do prazer", te ajuda a ter objetivos e a se sentir realizado quando alcança um objetivo; mas também ligada à impulsividade e vícios.)
A plataformas de apostas são uma armadilha psicológica, cheias de cores, sons, telas que abrem, promessas de ganhos, feitas por gente que sabe como funciona o cérebro e que quer arrancar de você todo o seu dinheiro.
Como em qualquer vício (seja de coisas lícitas e das ilícitas), você acredita que "está sob controle", que só joga porque quer, que pára de jogar quando quiser e que você não é como fulano que se afundou na droga X.
Quer ver a sequência mais comum nos apostadores? É assim oh: você joga e como o jogo é programado para te viciar, você ganha umas moedas no jogo. Você ganha mais algumas apostas. Para continuar jogando ou para conseguir sacar algo, você precisa colocar um valor bem pequeno. Você ganha mais 2 ou 3 vezes. O valor que você recebe, irá perder nas próximas rodadas. Para conseguir apostar mais, e recuperar o dinheiro, você coloca mais dinheiro (dinheiro real da sua conta bancária, apenas usando o pix no seu aplicativo). Só que você perde de novo. Como exemplo, vou usar alguns números: você pode sim ganhar R$ 100,00; mas para isso você vai perder R$ 500,00; talvez até R$ 1.000,00. Matemática básica... valeu à pena? Não, não vale a pena perder 10, 15, 20 vezes o valor que você recebeu. Com o passar do tempo, você perde até o que não tem: fica no vermelho, deve o cartão de crédito, entra no cheque especial e qualquer dinheiro que cair na sua conta – inclusive o seu suado salário - será descontado para pagar dívidas que você fez no aplicativo "era só um joguinho" ou "só uma aposta do placar do jogo de domingo".
Algumas outras coisas que você pode perceber após i início do vício são uma irritabilidade, você fica mais distante das pessoas, tem momentos de ansiedade, de falta de paciência, esconde ou até mente sobre as apostas e os jogos...
Além da questão da dopamina que eu já contei, tem a questão que normalmente vícios em jogos e em apostas, são a ponta do iceberg: eles encondem dores, mágoas, ansiedade, depressão, tédio, e outras situações que você já estava passando.
Admitir que perdeu o controle é o passo mais difícil, mas também é a única forma de resolver. A psicoterapia trata o vício e as causas que desencadearam ele na sua vida. Você merece que alguém cuide de você. Nós estamos aqui para cuidar de você.
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"Este texto tem caráter puramente psicoeducativo. As definições, conceitos e exemplos aqui apresentados são baseados nos critérios diagnósticos do DSM-5-TR."
Autores:
Eduardo Priamo Ferreira
Letícia Ésther de Andrade
Maria Eduarda de Melo Marques
