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Doutor TikTok: o perigo do autodiagnóstico por vídeos curtos e porque as redes sociais não substituem a terapia

Você está rolando o feed e se começa a assistir um vídeo de 30 segundos ou um pouquinho mais, enquanto alguém fazendo "caras e bocas", dancinha e apontando para os lados, vai mostrando "3 sinais de que você tem TDAH/Autismo e não sabia: 1. Esquecer onde deixou a chave; 2. Ficar exausto após interações sociais; 3. Procrastinar tarefas chatas". Nos comentários, milhares de pessoas escrevem: "Meu Deus, sou eu!", "Ee descreveu, juro!"

Em segundos, coisas que quase todo ser humano tem em dias de pressa, cansaço ou até "preguicinha" de algumas tarefas, o algoritmo te entrega um diagnóstico e você acredita.

As redes sociais e os vídeos curtos popularizaram temas de estudo e trabalho da saúde mental - o que é ótimo para reduzir o preconceito - entretanto, o formato dessas plataformas transformou diagnósticos complexos e demorados em conteúdos de entretenimento superficial. O diagnóstico por viralização virou um perigo real. Quem ganha é o dono do canal, através da monetização das visualizações, e quem perde é você, que acha que tem um diagnóstico que provavelmente não tem, e que pode estar escondendo o que você tem de verdade.

Seres humanos são complexos demais para caber em um formato de Reels ou TikTok. Quando tentamos resumir o ser humano em 3, 4 ou 5 palavras, o risco é um adoecimento ainda maior.

Não é correto considerar comportamentos comuns como transtornos. Esquecer de colocar o lixo para fora, ou de fechar uma janela, ou de um compromisso marcado há várias semanas, é comum. Todo mundo já fez isso.

Isso sem falar de como o algoritmo trabalha. Você sabia que se você assiste a um vídeo até o final, ele vai te enviar vários sobre o mesmo tema? De repente você começa a agir diferente, sendo moldado a agir como se tivesse o transtorno, ou a achar que tem o transtorno, e vai pegando pequenos detalhes do seu cotidiano como se fossem "provas" do diagnóstico.

Vou dar um exemplo: A falta de foco pode ser um sinal de TDAH? Sim. Mas também pode ser depressão, ansiedade, noites mal dormidas, problemas de tireoide, desidratação, preocupação com algo específico daquele dia, ou até vício no celular. O algoritmo – e quem postou o vídeo – não sabem diferenciar.

Tratar o sintoma sem entender a causa real é como silenciar o alarme de incêndio de uma casa enquanto o fogo consome os cômodos. Além de não resolver o problema, pode agravá-lo ou ainda criar novos problemas.

Um psicólogo estuda por vários anos para entender não apenas o que dizem os manuais, mas a sua história de vida, quem você é e o que precisa ser feito.

Na psicoterapia avaliamos o seu histórico de vida, a sua rotina, o seu ambiente de trabalho, a relação com as pessoas que você convive, os seus traumas e também – por que não? – o que tem de positivo em você e na sua vida. O profissional não te enxerga como um checklist de sintomas do TikTok, mas como um ser humano único. O objetivo da terapia não é te dar um "carimbo" ou um rótulo para você usar de muleta, mas sim construir ferramentas reais para você viver com autonomia e plenitude, independente se você tem algo para ser diagnosticado ou não.

Se um vídeo curto te acendeu um alerta, use esse insight como um ponto de partida para conversar com quem realmente entende, não como um ponto final. A sua mente merece mais do que trinta segundos de atenção. Você merece que alguém cuide de você. Nós estamos aqui para cuidar de você.

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"Este texto tem caráter puramente psicoeducativo. As definições, conceitos e exemplos aqui apresentados são baseados nos critérios diagnósticos do DSM-5-TR."

Autores:

Eduardo Priamo Ferreira

Letícia Ésther de Andrade

Maria Eduarda de Melo Marques

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